segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O Espelho

Ao ler as notícias de hoje, me deparei com a quebra da 4° maior instituição financeira norte-americana, que como consequência fez despencar as bolsas do mundo inteiro; apesar de sempre ficar abalada com relatos de mortes, sem lamentar, li sobre o falecimento de Richard Wright (que descanse em paz!); também notei manchetes menos importantes como o call center do show da Madonna que teima em dar ocupado. Nem sequer a fúria do furacão Ike conseguiria causar tamanha confusão de pensamentos como a singela e profunda história de vida e morte de Pavel L. Surpreendeu-me o destaque na página de uma revista de circulação mundial sobre a tristeza gerada pela morte de um vagabundo. A princípio imaginei que tratava-se de neto ou bisneto de uma nobreza decadente ou como não é raro, de uma antiga estrela do rock ou do futebol que entregou-se às drogas e acabou na sargeta (já que hoje o O.J. Simpson também foi notícia de jornal). Tive muita curiosidade em saber qual foi a obra tão importante realizada por um mendigo que levou tal site a publicar 2 páginas sobre a sua morte. Quem teria sido Pavel L.? Como foi parar nas ruas? Como muitos outros moradores de rua, padeceu após uma bebedeira. Mas o que é diferente na sua história é a comoção causada pelo seu falecimento. Diversas pessoas manifestaram seu afeto e tristeza, a tal ponto que chamou a atenção da imprensa. Esta história me comoveu e me fez pensar... Sua obra mais importante foi a conquista de amigos, seu método era simplesmente ser amável. Sem bens materiais, nem sequer um teto, na companhia apenas de sua cadela, apesar da constante embriaguez, fazia transparecer por trás de sua barba longa a pessoa maravilhosa que era.
Sempre perdi horas imaginando o que uma pessoa devia fazer na vida para se tornar página da história. Percebi que a história é formada de políticos bons ou maus, artistas com problemas psicológicos e estudiosos mais ou menos inteligentes. São eles que escrevem a nossa história. As pessoas comuns só chegam lá quando vivenciam alguma tragédia pessoal. A morte de Pavel L. foi tranquila, enquanto dormia, mas a sua vida, embora seja ainda a realidade de muitos, talvez possa entrar no rol das tragédias pessoais. Pela sua índole Pavel deveria ter construído mansões, de tão ilibada poderia facilmente ser ministro do STF. O caráter irrepreensível traria muitos lucros a grandes empresas e mais dignidade para seus trabalhadores. Dignidade da pessoa humana... fala-se tanto neste assunto hoje em dia... no entanto, acredito que ninguém possa afirmar que Pavel não teve dignidade. A julgar pelas suas características pessoais, ele deveria ter conhecido o luxo, o sucesso, poderia ter dirigido um país e levado a todo o seu povo seus valores e sua amabilidade. Mas esta história é só mais uma prova de que a sociedade não premia as pessoas pelo que são e pelos valores pessoais, mas sim pela conveniência e pelos valores monetários. Afinal, em bolsas de valores não se pode negociar virtudes.
Nem sequer o conheci, essas qualidades concluí da matéria que li. Tirem suas próprias conclusões.

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